Alunos de Agronomia clonam rosas para o bicentenário de Anita Garibaldi

Reprodução das flores é feita por meio de diferentes técnicas no Centro Tecnológico do campus Tubarão; plantas trazem DNA de rosa vinda da Itália

Para colaborar com o projeto internacional “Dois Mundos e uma Rosa para Anita” que celebra o bicentenário de Anita Garibaldi, completados em agosto deste ano, a Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) está clonando as rosas do jardim da residência de sua família na Itália.

Anita Garibaldi foi uma revolucionária nascida no município de Laguna (SC) e conhecida por participar de batalhas no Brasil, como a Guerra dos Farrapos ou Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul, e na Itália. Recebeu, por isso, o título de “Heroína dos dois mundos.”

Uma série de comemorações será feita no Brasil e na Itália para marcar o ano em que ela completaria 200 anos. Um dos eventos prevê a distribuição de rosas nas cidades catarinenses pelas quais Anita passou. As flores da homenagem terão a mesma carga genética das que estão no jardim da família Garibaldi.

As rosas estão sendo clonadas por uma equipe de alunos do curso de Agronomia da Unisul, no Centro Tecnológico Unisul (Centec), no campus Tubarão. João Pedro Barros de Assis, Eri Igor Aparecido dos Santos, Rafaela Guedes Maica e Erick Costa, liderados pelo professor e engenheiro agrônomo Júlio Cesar de Oliveira Nunes, utilizam técnicas diferentes de clonagem para garantir que até a data do evento, no mês de agosto, haja mil amostras de rosas de Anita para a celebração.

“O grande ponto é conciliar o fator histórico com a tecnologia. A rosa é mística em relação à família Garibaldi e vamos utilizar a planta matriz para propagá-la com a tecnologia de clonagem de vegetais”, explica Nunes, que possui mestrado na área de recursos genéticos vegetais.

As técnicas

Nunes conta que recebeu três amostras de rosas vindas da Itália para fazer a clonagem, mas elas chegaram muito debilitadas, e por isso os pesquisadores tiveram de mudar de estratégia para garantir sua reprodução.

“A nossa ideia era realizar a clonagem via propagação vegetativa, através do método por estaquia [via vasos plantados], mas tivemos de optar pela multiplicação in vitro. Já tínhamos 78 explantes introduzidos nos vidros entrando em fase de multiplicação, mas como entramos em lockdown, esse material se perdeu”, lembra o professor. Em seguida, uma nova safra do processo de reprodução também foi afetada pela pandemia.

Os contratempos exigiram que fosse adotada uma nova técnica para garantir a reprodução das rosas de Anita: a enxertia de campo. Nessa modalidade de reprodução vegetal, os pesquisadores pegam a “gema” (uma das regiões do caule) e a enxerta sobre uma outra rosa qualquer comum.

“Fiz a sobreenxertia sobre essas rosas, e houve um “pegamento” de 100%. A flor estava com 40 centímetros de altura no primeiro mês. Hoje tenho 150 clones de rosas que servirão de matrizes”, diz Nunes.

Próximos passos

Até o dia 1º de maio, a previsão do agrônomo é chegar em 500 plantas que serão produzidas por meio de outra técnica, a estaquia, com ajuda de um hormônio regulador de crescimento chamado de AIB Acido Indolbutírico.

“Na propagação por estaquia, nós cortamos estacas [com um pedaço do caule onde há as gemas que formam as futuras folhas e galhos] de 15 centímetros e na base dela fazemos a imersão desse hormônio de AIB. Em até 15 dias, ela cria raiz e passa a ser uma nova planta clone, como a matriz.”

Com as 500 rosas em mãos, para ter mais agilidade e chegar até as mil plantas, Nunes partirá novamente para a técnica in vitro, em que são usadas micro estacas de caules de três a quatro centímetros. “Fazemos a assepsia do vidro para que não haja contato com substâncias que possam trazer contaminação, como bactérias e fungos, porque neste caso toda a multiplicação ocorre no meio de cultura [é uma espécie de gelatina] que contém um hormônio de multiplicação chamado BAP [benzilaminopurina]. Quando o material estiver nesta gelatina, em até 40 dias eu já vou ver a planta formada dentro do tubo de ensaio, pronta para ser entregue.”

Nunes conta que existem ainda outros processos de clonagem vegetal em ambientes controlados, como a embriogênese somática, mas que levam mais tempo do que os adotados no caso das rosas.

O agrônomo explica que a célula possui uma programação, conduzida através dos sinais químicos. “Quando você mexe nessa programação genética das plantas, pode alterar o que era para ser uma célula simples para fazer fotossíntese, consegue modificar para fazer algo superior.”