Projetos de extensão devem ocupar 10% da carga horária na graduação: entenda

Cursos e projetos de extensão da Unisul trazem habilidades técnicas com alta demanda no mercado, ampliam empregabilidade e dão início à carreira acadêmica

Era dezembro de 2018 quando o então Ministro da Educação, Rossieli Soares, assinou uma normativa que assegurava um mínimo de 10% da grade curricular dos cursos de graduação no Brasil para projetos de extensão. Na prática, isso reforça algo que já está no artigo 207 da constituição brasileira: a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão nas universidades do país.

“Ou seja, a extensão sempre foi o pilar de uma universidade”, conta Rosiléia, mestre em Saúde Pública e integrante da Pró-Reitoria da Unisul, em Santa Catarina. “Ela precisa estabelecer um diálogo entre sua grade de ensino e pesquisas acadêmicas com projetos de extensão, de forma equivalente. A formação de um profissional e ser humano não pode mais ficar preso somente ao que é ensinado entre as quatro paredes da sala de aula, e é aí que entra a necessidade da extensão curricular. ”

Os projetos de extensão, assim, têm sido reconhecidos como uma forma de produção de conhecimento aprofundado e prático, que contribui para a trajetória acadêmica do estudante.

Mas o que é um projeto de extensão?

Projetos de extensão trazem olhar da vida real para o estudante

Embora determine a obrigatoriedade de projetos de extensão na graduação, o MEC e a Constituição não delimitam modelos específicos que eles devem seguir. Isso significa que existe uma certa liberdade para universidades aplicarem a extensão curricular em diversos formatos, desde cursos de extensão com tempo pré-determinado, até programas de extensão permanentes, que podem envolver eventos, oficinas, publicações de pesquisas, entre outros.

Rosiléia explica que há, porém, dois fatores determinantes que precisam estar em um projeto de extensão – ao menos no que tange a Unisul. O primeiro é que ele deve colocar o aluno em uma posição de atuação dentro da área de conhecimento que atua – ou seja, ele deve pôr a “mão na massa”, praticando a profissão que deverá exercer após formado.

Isso significa que, para cada tipo de curso, um diferente projeto de extensão pode ser proposto. Um estudante de Tecnologia da Informação ou Engenharia da Computação, por exemplo, pode participar de uma série de pesquisas de inovação tecnológica, enquanto um psicólogo pode praticar consultas em hospitais universitários ou até clínicas parceiras, atendendo pacientes de perfis específicos, como crianças, por exemplo.

“A ideia principal desses cursos é o estudante aprimorar habilidades aprendidas em sala de aula, mas que só podem ser desenvolvidas a fundo ao colocá-las em prática, atuando profissionalmente, se expondo para a vida real do mercado de trabalho e da sociedade”, resume Rosiléia.

Dessa forma, além de fixar melhor a aprendizagem, os projetos de extensão acabam funcionando como uma forma de iniciar a especialização do estudante dentro de uma as áreas que estuda na graduação, visando ampliar sua qualificação e experiência prática nesta atuação e dar um ponto de partida para sua vida profissional ou pesquisa acadêmica.

Projeto de extensão deve beneficiar comunidade local

O segundo fator determinante para um projeto de extensão é que ele estabeleça um diálogo com a comunidade em que a universidade está inserida – ao menos é assim que funciona na Universidade do Sul de Santa Catarina, conta Rosiléia.

“Para a extensão foram criadas muitas ações focadas na assistência social, pensando em maneiras de contribuir de alguma maneira para o benefício da comunidade local. É um diálogo que a Unisul faz desde que nasceu, 60 anos atrás. ”

A professora da Unisul explica que a origem da universidade, nascida na cidade de Tubarão, se deu pela vontade da região sul de Santa Catarina ter uma universidade própria, capaz de desenvolver e melhorar a qualidade de vida da região. Isso fez com que, desde seu início, a universidade tivesse uma forte frente comunitária, desenvolvendo projetos que auxiliam seus entornos – ou seja, projetos de extensão, com participação de docentes e estudantes.

Esse contato com a comunidade local envolve apoio em áreas de saúde, assistência jurídica e até mesmo apoio da área de engenharia na construção civil.

“Um exemplo prático interessante é nossa oficina de fitoterapia, que explora o potencial das plantas na saúde da população, saindo da medicina tradicional. Então os estudantes vão para as comunidades e fazem atendimentos dessa medicina natural, promovendo, inclusive, uma troca com o saber popular, que por si só aprendeu a usar plantas medicinais no dia a dia”.

Rosiléia explica que esse exemplo mostra uma das grandes sacadas da extensão: a troca do saber acadêmico com o saber popular. Neste contato, estudante acaba aprendendo e reconhecendo o conhecimento gerado culturalmente na sociedade, enquanto contribui com um olhar mais científico, testado e analisado – uma troca extremamente rica e benéfica para a população e para o aprendizado do aluno de graduação.

Cursos, projetos e programas de extensão: entenda as diferenças

Embora tenham suas particularidades, tanto os cursos quanto os projetos e os programas fazem parte da extensão curricular.

  • Cursos de extensão: são caracterizados como uma ação de curta duração, sempre com tempo determinado, com cargas horárias específicas. Na Unisul, por exemplo, elas devem conter um mínimo de 8 horas, que podem ser de aulas teóricas ou práticas, além de terem a liberdade de serem presencial ou online. São destinados para a iniciação do estudante em um conhecimento específico, visa ampliar o conhecimento de uma área, funcionando como uma qualificação extra à grade curricular.
  • Projetos de extensão: Embora também tenha um objetivo específico e prazo determinado de realização, os projetos de extensão tem maior liberdade de formatos. Geralmente, para participar deles é necessário passar por edital. Assim que aprovado, você passa a participar de todas as ações que o projeto de extensão propõe, que pode ser realização de eventos, atendimento às comunidades, aprofundamento de pesquisas acadêmicas, desenvolvimento de produtos e soluções para desafios profissionais em laboratórios de inovação, entre outros.
  • Programas de extensão: se cursos e até projetos de extensão funcionam como categorias “micro” dentro da extensão curricular disponível em uma universidade, programas de extensão são o “macro”: cada um deles pode ser composto por diversas modalidades de extensão menores, como eventos, oficinas, projetos e cursos. Cada centro universitário conta com diversos programas de extensão, focados em temas como direitos humanos, educação ambiental e empreendedorismo e inovação – em geral, assuntos transversais e interdisciplinares, ou seja, que podem receber estudantes de diversas áreas.

Empregabilidade e iniciação à pesquisa acadêmica: os benefícios de projetos de extensão

Graduados existem muitos. Formados com projetos de extensão, ou seja, com experiência profissional realizada durante a universidade, nem tantos.

“Além do seu diploma, o que mais você fez? Como você buscou se capacitar? Quais habilidades aprimorou? Contar com programas de extensão não só demonstra que você teve experiências que ampliaram suas habilidades técnicas e competências socioemocionais na área de formação, como prova seu interesse no crescimento e aprofundamento profissional, um baita diferencial entre os milhares de alunos que se formam todos os anos na hora de buscar empregos”, analisa Rosiléia.

Além do fator empregabilidade, a professora observa ainda que projetos de extensão fazem um diálogo extremamente forte com a pesquisa acadêmica – e aqui é reforçada a indissociabilidade entre os dois, proposta pela constituição brasileira.

Ao final de todo projeto de extensão na Unisul, existe a construção de um artigo, um relato daquilo que foi feito no período, com seus aprendizados e o que foi descoberto – “quase uma pesquisa, por assim dizer”, frisa Rosiléia. Com esses aprofundamentos resultantes da extensão curricular, docentes e estudantes buscam viabilizar a publicação científica destes artigos, que, no futuro, muitas vezes servem de base para a inserção do aluno na pesquisa acadêmica.